Como será o mundo quando não houver mais ninguém que nasceu antes da internet? A pergunta é respondida pelo jornalista Michael Harris em seu último livro

Quando ainda trabalhava como editor de revistas, o jornalista canadense Michael Harris ficava conectado a diversas telas. Como todos nós, ele estava escravizado pelo computador, pelo celular e pelo e-mail. Um dia, notou que algo faltava: não tinha mais um minuto sequer de ausência. Ou seja, nunca se distanciava de nada porque se mantinha constantemente conectado ao que estava acontecendo longe dele. Constatar essa atitude o angustiou e, a partir daí, Michael tomou uma decisão radical: demitir-se. 
 
O desafio era voltar aos anos 1980 e ficar longe do smartphone e da internet por um mês. Esse exercício o fez pensar sobre o impacto que o uso constante da internet tem na nossa forma de ver as coisas e de trabalhar. E ele se perguntou como seria a sociedade quando não houvesse mais ninguém que tivesse visto o mundo antes da internet. A indagação deu origem ao livro The End of Absence (O Fim da Ausência, em tradução livre, ainda sem edição no Brasil). Em entrevista à VOCÊ S/A, Michael comenta sobre nossa dependência da conectividade. 
 
Você começa seu livro se perguntando como será o mundo quando só houver pessoas digitalmente nativas, que nunca viveram no mundo analógico. Qual seria sua resposta para isso hoje?
Em 2060, toda a força de trabalho mundial será formada por pessoas para quem a internet é como a atmosfera, algo que existe e é usado sem nem pensar a respeito. Vejo duas possíveis consequências: se tivermos azar, esses futuros trabalhadores terão perdido inteiramente formas anteriores de pensamento e de comunicação. Viverão em um modo acelerado, que os empurra continuamente para o pensamento coletivo e para estímulos rápidos. Mas, se tivermos sorte, então, essas pessoas terão sido capazes de preservar algumas coisas da era pré-internet. Nesse segundo cenário, profissionais poderão escolher ativamente os meios de atuação – digital ou não – e formas de pensamento que melhor se encaixam com cada situação. É a diferença entre uma vida passiva e uma ativa, entre deixar a tecnologia ditar nossa cultura e usar a tecnologia para formar a cultura. Claro, estou sendo extremista aqui, a realidade deve ser uma mistura dos dois cenários.
 
Para testar a experiência da desconexão, você resolveu se demitir e adotar uma rotina totalmente analógica. Teria sido possível chegar às conclusões a que chegou em seu livro se tivesse continuado no ambiente corporativo?
Talvez não. Não é possível enxergar a nós mesmos estando tão imersos em nossa vida. Temos que balançar as coisas. Por isso, é tão importante conseguir uma pausa da conectividade constante. Esse exercício ajuda a se descolar da sua vida e funciona da mesma maneira que fazer uma viagem: você não pode realmente conhecer a cidade em que cresceu antes de ter visitado outras no mundo. E você não pode realmente saber o que a internet faz com a sua mente até que tenha tentado outros estados mentais.
 
Hoje em dia, as pessoas acabam passando entre oito e 12 horas nas empresas, quase sempre usando tecnologias digitais, o que pode tornar difícil se desconectar fora do trabalho. Como seria possível tentar retomar o sentimento de desconexão e ausência quando nossos empregos demandam o contrário?
O ambiente de trabalho atual criou uma expectativa de disponibilidade perpétua. Isso chega ao ponto de fazer com que muita gente tenha pânico de tirar férias – 40% dos americanos não usam todos os seus dias de folga, por exemplo. Acho que disseminar esse sentimento de estar ausente é possível, mas somente se nossos empregadores nos ajudarem. Por exemplo, por que não criar contas de e-mails corporativos que não podem ser acessadas durante as férias? Afinal, a única razão pela qual checamos mensagens nas férias é porque sabemos que os outros sabem que podemos checá-las. 
 
 
Não estar disponível o tempo todo não pode ser visto como uma forma de rebelião pelos empregadores? 
Eu fui muito sortudo porque pude tirar um mês inteiro para ficar offline e sem  nenhum contato com o celular. Mas a maior parte das pessoas perderia seu emprego se tentasse algo parecido. No entanto, eu acho que as pessoas precisam de menos conexão do que pensam. Passamos pelo menos metade do tempo checando o e-mail, é como uma compulsão nervosa. Dizemos a nós mesmos que somos bons funcionários, mas na verdade estamos só evitando as coisas, estamos procurando por algum tipo de doce virtual. Na verdade, essa compulsão por e-mails não melhora o trabalho, pelo contrário, diminui nossa produtividade. Estudos mostram que nós levamos de dez a 15 minutos para retomar o ritmo cada vez que checamos a caixa de entrada.
 
Qual foi sua maior surpresa durante as pesquisas para o livro?
Descobrir como nossa ansiedade a respeito de nossa vida online é recorrente historicamente. O filósofo Sócrates, por exemplo, se preocupava sobre como a invenção da escrita iria tornar nossos cérebros menos eficientes. O que é importante lembrar é que a tecnologia em si nunca é boa ou má. Nossas tecnologias são, ao mesmo tempo, belas e perigosas. Se formos preguiçosos, vamos nos machucar. Se nos mantivermos curiosos e de olhos abertos, vamos continuar enriquecendo nossa vida. 
 
Por Bárbara Nór/ Publicado pela Revista Você S/A

 

 
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