Escritor conta histórias de como pessoas que não tinham muito a seu favor conseguiram se sair muito bem nos negócios. O escritor Malcom Gladwell publicou cinco livros e já vendeu mais de 20 milhões de cópias. Em um deles, Davi e Golias, Gladwell dá uma nova perspectiva para aquilo que costumamos classificar comodesvantagens e obstáculos e mostra que muitas coisas podem ser criadas a partir da adversidade. Em sua passagem por São Paulo para participar doHSM Expomanagement -- “sempre é bom visitar cidades onde o trânsito é pior do que na minha”, disse referindo-se a Nova York -- ele falou sobrequatro casos para mostrar que os azarões podem estar em grande vantagem quando o assunto é negócios e empreendedorismo.

Malcolm Gladwell (Foto: @_openspace)

Steve Jobs e Xerox

Na década de 1960, a Xerox já era uma empresa grande e lucrativa e estabeleceu um centro de pesquisa e desenvolvimento com alguns dos melhores profissionais e verba ilimitada para reinventar os escritórios tal qual eles eram formatados na época. Um dos produtos desenvolvidos pela empresa foi um computador pessoal com uma interface gráfica, muito mais amigável para os usuários, com ícones que podiam ser acessados com o clique de um mouse. Um empreendedor desconhecido na época, Steve Jobs, sabendo das inovações que a Xerox estava criando, conseguiu acesso para fazer um tour pela empresa. Ele ficou impressionado com as inovações do computador. De volta à sua empresa, mobilizou todo mundo para criar um mouse e uma interface inspirada na que tinha visto. O resultado foi o Macintosh, que superou o computador lançado pela Xerox. O que Jobs, que parecia o azarão da história, tinha para superar a Xerox? Senso de urgência e nada a perder. Com uma pequena companhia que poderia não dar em nada, ele viu ali sua chance e correu para concretizá-la, diz Malcolm Gladwell. O fato de ser o “underdog” (azarão) ajudou o empreendedor a construir a empresa mais valiosa do mundo.

David Sarnoff e o rádio
Na década da 1920, a fabricante de rádios RCA não estava conseguindo deslanchar a venda de produtos. Na época, os rádios eram usados para ouvir notícias e música clássica. Um funcionário novato, David Sarnoff, sugeriu que a empresa transmitisse ao vivo uma luta de boxe que seria "a luta do ano", entre Jack Dempsey e Georges Carpentier. Seus superiores não apoiaram a ideia, mas deram liberdade para que ele fosse atrás por conta própria. Sarnoff acabou conseguindo fazer a primeira transmissão esportiva da história do rádio e transformou a função do aparelho. As vendas aumentaram logo depois. E o que ele via que seus chefes não podiam ver? Por ser um novato, sem uma carreira e uma reputação como engenheiro a cultivar, ele teve liberdade para enxergar possibilidades. A inexperiência que parecia uma desvantagem se tornou seu trunfo.

Malcolm McLean e os containers
McLean começou a trabalhar em um posto de gasolina e comprou um caminhão, pois o dono do posto pagava US$ 5 a mais para quem fizesse o serviço de transporte de combustível. Ele conseguiu fazer dinheiro com o caminhão e construiu uma empresa de transporte. McLean também fazia entregas nos portos e não se conformava com a ineficiência do processo de carga e descarga. Na época, para carregar um navio era preciso descarregar os caminhões, armazenar a carga e depois recolocá-la nos navios. O tempo de carga e descarga para um produto que ia de Nova York a Londres demorava tanto quanto a viagem de navio de uma cidade a outra. McLean resolveu mudar a maneira de transportar as cargas, fazendo com que a parte de trás dos caminhões fosse separada do chassi e colocada direto dentro dos navios. Ele criava, assim, o transporte por contêineres e mudava o jeito de mover cargas pelo mundo. Os donos dos portos e os donos das grandes companhias de transporte não haviam pensado nisso. Por ser alguém vindo de fora, McLean conseguiu enxergar o potencial de integrar todos os elos da cadeia e resolver o problema.

Ingvar Kamprad e os móveis
O fundador da Ikea não se conformava que os fabricantes de móveis passassem tanto tempo colocando as pernas das mesas e cadeiras, que dificultava seu transporte. Assim, ele criou uma empresa na Suécia que enviava os móveis desmontados aos compradores. Quando começou a ter sucesso, vendendo por preços mais baixos que as demais empresas no mercado, o negócio foi boicotado por seus concorrentes, que forçaram fornecedores e parar de fazer entregas. Kamprad resolveu montar uma fábrica na Polônia, um país que tinha muita madeira e mão de obra barata, mas que na época era alinhado com a União Soviética. Ele fez a mudança apesar de muitos o acharem "louco". Kamprad conseguiu chegar a esse resultado porque não tinha nada a perder e era sua opção mais viável. Ser um azarão deu-lhe liberdade para arriscar.

Por Marcela Bourroul | Publicado originalmente: Época Negócios

 
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