Recompensadora para quem gosta de dinamismo, a carreira na costuma despertar grande interesse entre estudantes de engenharia, administração e áreas afins. Esse prestígio está, em grande parte, relacionado ao rigoroso processo seletivo, aos altos salários e aos clientes importantes que costumam atender. Desafios constantes e crescimento acelerado também são fatores que contribuem para essa atratividade. 

O Na Prática já abordou bastante sobre a carreira em uma consultoria estratégica. Como é o dia a dia no trabalho, como passar nos processos seletivos e como resolver cases, por exemplo, são conhecimentos que você pode adquirir desde já em nossos materiais educativos.

Contudo, esses não devem ser os únicos fatores considerados pelos jovens na hora de decidir pela profissão. “Mais importante do que buscar prestígio é entender a rotina de trabalho dos consultores estratégicos e o que você vai fazer durante as horas que passa dentro e fora do escritório”, explicou o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marcelo Binder, em uma entrevista anterior ao Na Prática.

Dado que o cotidiano é, de fato, intenso – não é raro que uma jornada dure 12 horas –, saber seu estilo de trabalho e pesquisar sobre esse mercado são passos fundamentais para entender se essa é ou não a carreira certa para você.

Como todo trabalho, claro, a vida de consultor tem seus prós e contras. E quem sabe melhor quais são que os próprios consultores? Confira abaixo as experiências e conselhos de quatro  deles, todos ex-bolsistas da Fundação Estudar:

 

Daniel Azevedo, sócio do Boston Consulting Group (BCG) em São Paulo

Formado em Engenharia da Computação pela Unicamp, começou sua carreira como consultor em seu último ano de faculdade, em 2003. Em 2010, já com um MBA da Stanford University Graduate School of Business, ingressou no BCG em São Paulo.

Como se preparou para o processo seletivo?
Quando participei do processo seletivo, confesso que fui surpreendido. Na minha época não havia cultura de consultoria na Unicamp, então não tinha a menor ideia do que esperar. Prestei alguns processos e acabei aprendendo a resolver casos durante as entrevistas. Fui pior nas primeiras, mas fui melhorando e, ao final do primeiro ciclo de recrutamento, recebi algumas ofertas de estágio.

Quais são as melhores e as piores partes do trabalho como consultor?
A melhor parte é fácil. Trabalho com temas superinteressantes e com pessoas incríveis, tenho desafio intelectual constante, é algo muito dinâmico, de impacto e que traz uma carreira acelerada, global, de exposição precoce e de muito desenvolvimento.

Como muitas outras profissões de alta performance, você acaba se entregando de corpo e alma para o seu desafio momentâneo – e os desafios te exigem o tempo todo. Como você quer entregar seu melhor, às vezes é difícil equilibrar isso com a vida pessoal. É algo que precisa de constante reflexão e reequilíbrio para garantir uma sustentabilidade de longo prazo.

Qual foi o melhor conselho profissional que já recebeu?
Buscar trabalhar com as pessoas de que gosto, com as quais me identifico e que me inspiram. A jornada profissional é longa e fazê-la ao lado delas a torna muito mais prazerosa.

Que conselhos daria para os jovens que querem ter uma carreira de sucesso em consultoria?
Os processos estão cada dia mais competitivos e uma boa preparação de estudos de caso é muito importante para ter sucesso nas entrevistas. Depois de ingressar na consultoria, meu conselho é dedicar-se para desenvolver as habilidades tão valorizadas na profissão – solução de problemas, capacidade analítica, estruturação, habilidades de comunicação, etc.

Mas não se esqueçam do poder da determinação que é, na minha visão, a chave do sucesso.

 

Dorival Bordignon Junior, gerente na A.T. Kearney em Dubai

Formado em Engenharia Mecânica pela Unicamp, Dorival obteve seu mestrado na Booth School of Business da Universidade de Chicago, em 2013. No mesmo ano e já com oito anos de experiência no setor, ingressou na A.T. Kearney. Foi transferido para Dubai quase dois anos depois e hoje atua no Oriente Médio.

Como se preparou para o processo seletivo?
Para me preparar, utilizei ferramentas que a escola de negócios disponibilizara, como um livro de cases de anos anteriores, e treinei com colegas brasileiros que também estavam recrutando para consultorias no Brasil. Já melhor preparado, comecei a fazer mock cases com o pessoal que havia voltado de estágios de verão em várias consultorias.

Olhando para trás com os olhos de quem entrevista agora, sei que o mais importante na resolução de qualquer case é entender o contexto do cliente, as dinâmicas da indústria em que ele se encontra e desenvolver o melhor framework de resolução utilizando os conceitos de negócio mais apropriados. Criatividade é sempre importante, mas deve ser ancorada em uma estrutura clara e flexível para incorporar novas informações do case.

Quais são as melhores e as piores partes do trabalho como consultor?
As melhores são aprendizado constante e crescimento profissional acelerado. Cada situação é diferente, principalmente nos primeiros anos quando sua plataforma de indústria e função ainda não estão definidas.

Um projeto padrão em consultoria dura entre dois e quatro meses e este é o tempo que você tem para aprender sobre uma nova indústria, o cliente e, em alguns casos, geografia. E a velocidade da carreira é acelerada com base no seu desempenho. Portanto, se você começar como analista de negócios e estiver desempenhando de acordo com a evolução esperada, pode chegar a uma posição equivalente a de diretor em menos de oito anos.

As piores são as viagens – estar sempre viajando para estar perto do cliente resulta em falta de rotina em casa – e a visualização dos resultados. Em geral na consultoria, você não participa da implementação total das suas recomendações. Como as transformações podem durar anos, acabamos mudando de projeto ou de cliente antes desse tempo.

Qual foi o melhor conselho profissional que já recebeu?
Não importa a posição, indústria ou idade, ninguém faz tudo sozinho e comunicação efetiva é a melhor ferramenta para convencer outros a se juntar ao seu barco. Em inúmeras ocasiões, percebi que as melhores mensagens não são as mais sofisticadas, mas sim as que as pessoas entendem, se identificam e se sentem compelidas a agir.

A comunicação efetiva começa por entender qual é a agenda das pessoas do outro lado e ajustar a mensagem e argumentos de suporte com base nisso. Antecipar-se as barreiras e enfrentá-las durante toda a comunicação reduz significativamente os conflitos e aumenta as chances de sucesso.

Que conselhos daria para os jovens que querem ter uma carreira de sucesso em consultoria?
Consultoria é um carreira que requer resiliência e flexibilidade para receber muito feedback e atuar rapidamente para mudar. É o que determina grande parte do seu sucesso já que o profissional tem que evoluir rapida e constantemente pois as responsabilidades mudam muito.

É importante sempre buscar conhecimento com consultores mais experientes, que já passaram pelas mesmas situações, e alavancar as ferramentas de desenvolvimento internas, como mentoria e treinamentos.

Candidatos interessados em consultoria também devem se sentir confortáveis em estarem sempre em foco, pois os times são enxutos e existe contato intenso com clientes e consultores sêniores. Uma atitude confiante sem arrogância é fundamental para persuadir clientes internos e externos e assegurar que as recomendações sejam aceitas e implementadas.

Finalmente, escolher uma consultoria com uma cultura corporativa alinhada com a personalidade do candidato cria uma sinergia importante, que faz diferença no longo prazo para catalisar o desenvolvimento profissional. Por isso, o candidato deve ser muito diligente para não cair na armadilha de seguir o que os amigos ou o mercado pensam ser melhor para ele ou ela.

 

Eduardo Roma, sócio da Bain & Co. em Londres

Formado em Engenharia pela Escola Politécnica da USP, foi fazer seu MBA na London School of Business em 2002 e ficou por lá. Em 2009, ingressou como parceiro no escritório londrino da tradicional Bain & Co.

Como se preparou para o processo seletivo?
O primeiro elemento foi conhecer melhor cada uma das empresas. Já havia trabalhado como cliente de consultorias de estratégia antes do MBA e tinha alguma noção das diferenças, mas achei importante ter uma ideia do estilo de trabalho, tipo de clientes e projetos, cultura e apoio que iria receber no meu desenvolvimento. Li bastante, assisti apresentações e também conversei com consultores de cada uma das empresas para formar minha opinião.

O segundo elemento foi a preparação para os estudos de caso. Estudei materiais do consulting club, recursos na internet e pratiquei com amigos.

Quais são as melhores e as piores partes do trabalho como consultor?
A cada ano que passa, acho meu trabalho mais interessante que no ano anterior. Gosto do aprendizado contínuo, do grau de liberdade para focar nas áreas em que tenho mais interesse e da possibilidade de conhecer nova empresas, culturas e pessoas interessantes. Acima de tudo, gosto da capacidade de ser independente e objetivo nas minhas recomendações.

A intensidade e o número de horas talvez sejam os pontos mais difíceis. Mas, sinceramente, isso melhora bastante com a experiência e senioridade e sinto que hoje tenho muito mais controle da minha agenda e de quando, como e onde trabalho se comparado com posições seniores na indústria.

Qual foi o melhor conselho profissional que já recebeu?
Um dos mais importantes foi escolher algo que goste de fazer.

Que conselhos daria para os jovens que querem ter uma carreira de sucesso em consultoria?
A carreira em consultoria pode proporcionar excelentes oportunidades de aprendizado e desenvolvimento profissional, mas “consultoria” em si é um ramo muito amplo e diverso. Portanto acho que o mais importante é investir em entender melhor as diferentes empresas, estilos, culturas e diferentes áreas de atuação.

 

Sara Castanheira, fundadora da consultoria Castanheira em Curitiba

Formada em Estatística pela Universidade Federal do Paraná, Sara obteve seu MBA na The Ohio State University Fisher College of Business, em 2005, e abriu sua própria consultoria, a Castanheira, em 2012. O negócio fechou no começo de 2016, quando a família se mudou para a Itália.

Por que decidiu abrir sua própria consultoria?
Teve a ver com o meu perfil e com o momento de vida. Sempre gostei de aprender coisas novas. e gostava muito de trabalhar em projetos, coisas com começo, meio e fim e que oferecem desafios que sempre mudam. Descobri também que gostava e tinha jeito para tirar as coisas do papel, implantar programas, ajudar outras pessoas nas empresas a fazer o que é recomendado.

A consultoria faz tudo isso e a gente aprende ajudando os outros. ​As oportunidades apareceram justamente no momento em que eu buscava voltar ao mercado de após um ano em que optei por me dedicar à minha filha. Duas pessoas que já haviam trabalhado comigo me pediram ajuda para implantar, em suas empresas atuais, programas similares aos que já havíamos implantado em grandes empresas. A oportunidade bateu na minha porta e eu abri!

Quais são as melhores e as piores partes do trabalho como consultor?
​A melhor parte, sem dúvida, é o aprendizado. A cada projeto conhecer novas empresas, novos ramos, novas pessoas… Outro ponto positivo é ter certa flexibilidade para recusar projetos e montar uma agenda mais adaptada à necessidade ou ao desejo de cada um.

​A pior parte, na minha curta experiência até agora, foi controlar a frustração quando me deparei com situações em que a empresa [cliente] não quis mudar uma prática enraizada e ruim. Sabendo o que seria melhor para a empresa, simplesmente seguir em frente e não ajudá-la a mudar foi um bocado difícil. Mais um aprendizado.

Qual foi o melhor conselho profissional que já recebeu?
Agilidade e transparência são primordiais para corrigir um erro. Quando erramos, temos que ser rápidos e honestos para corrigir o erro – isso aumenta a chance de as pessoas continuarem confiando em nós e de não estragar um trabalho brilhante por conta de um erro pequeno.

Publicado por Na Prática

 
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